Um filme de Steven Spielberg




Apesar da maior parte do mercado cinematográfico brasileiro ser dominado por filmes norte-americanos, nem todos os bons filmes oriundos da safra dos Estados Unidos têm o destaque que merecem aqui, lá ou em qualquer outro país. Pode-se excluir desse conjunto talvez os circuitos e festivais não tão inclinados para o ângulo comercial, como o Sundance Film Festival e Cannes – mas são exceção e sabe-se que não atingem a amplitude de um blockbuster. Os filmes em questão passam despercebidos pelas salas brasileiras, se é que passam por elas. Normalmente têm sua première diretamente em DVD.

Não há nada pior, durante o contato com uma obra de arte concebida em outra língua, do que uma péssima tradução. Para aqueles que não falam a língua estrangeira em questão, a má tradução distorce de tal maneira a interpretação da obra que acaba por se ter uma visão falsa de sua mensagem. O ideal, na verdade, é absorver o conteúdo na língua original, sem passar ou depender de traduções. (Por esse motivo se configura um pecado assistir a filmes dublados – e pelo mesmo motivo não uso senão os títulos originais neste WideScreen.) Nem sempre isso é possível, mas em se tratando da língua inglesa, não há desculpas, visto a amplitude de cópias disponíveis. Mesmo essa, que é considerada uma língua relativamente fácil, sofre de traduções terríveis; o que se dirá sobre outras.
Uma das vítimas mais recentes desse mal é Lost in Translation (2003), de Sofia Coppola, traduzido como Encontros e Desencontros. Não sei se as traduções para o espanhol – Perdido en Tokio – e hebreu – Avudim be-Tokio – que significam “perdido em Tóquio”, são piores do que a para o português. Isto é, os próprios títulos do filme foram, literalmente, perdidos na tradução, ou seja, na transformação de uma língua para outra, algo bastante expressivo e importante foi parar no limbo. Tal expressão – “perdido na tradução” – na verdade, seria a mais sensata tradução do título, porém soaria estranho aos ouvidos do público. “Encontros e desencontros” não é alheio ao longa, mas só engloba uma pequena porcentagem de tudo que ele quer transmitir. Enfim, trata-se de uma tarefa árdua e complexa essa do tradutor.
A tradução abordada por Coppola, na verdade, é a transição do Ocidente para o Oriente, especificamente dos Estados Unidos para o Japão. O espectador toma já um primeiro contato com o contraste cultural na abertura do filme, que exibe a capital japonesa à noite, quando o ator norte-americano Bob Harris (Bill Murray) chega à cidade para gravar um comercial para a marca de whisky Suntory – inspirado no fato de que o pai de Sofia, Francis Ford Coppola, gravou um comercial para a mesma marca junto com Akira Kurosawa na década de 1970.
No mesmo hotel (o Park Hyatt Tokyo) está hospedada a jovem Charlotte (Scarlett Johansson), que faz companhia para seu workaholic marido John (Giovanni Ribisi), um fotógrafo conceituado. Ela sente o impacto cultural de maneira muito dramática, sentindo uma enorme solidão durante o tempo que John está trabalhando e mesmo quando ele está com ela. Charlotte não consegue dormir, não se acostuma com a radical diferença de fuso-horário. Ao mesmo tempo, Bob também sofre com a insônia e sente-se frustrado por deslocar-se de uma distância tão grande apenas pelo cachê, ao passo que poderia estar fazendo algo que realmente lhe desse prazer. Seu casamento vai mal e ele passa por uma crise de meia-idade.
O destino fará com que estes dois estranhos em um mundo estranho se encontrem no bar do hotel e estabeleçam uma instantânea simpática relação de cumplicidade. Charlotte e Bob passam a apoiar-se um ao outro para encarar de frente suas questões interiores, intensificadas pelo desconforto causado pelo choque cultural. O relacionamento que desenvolvem não é predominantemente sexual; nem por isso pode-se dizer que seja integralmente amizade e vice-versa. Portanto, a melhor interpretação acaba por ser a cumplicidade e tudo que esta palavra engloba.
Lost in Translation é um filme extremamente sutil e sensível e foge muito do estereótipo do cinema norte-americano. Trata-se de um drama poderoso, diluído por um toque de comédia muito bem orquestrado. Sua grandeza repousa nos detalhes. Um olhar, um abraço, um quase sorriso perdidos pode deixar lacunas para o bom entendimento do filme. O espectador deve deixar-se levar por completo, ser tragado sem retorno para o mundo criado por Sofia. Na prática, permitir-se sentir o filme, o que é uma exigência para se assistir a qualquer filme, mas que aqui assume proporções vultosas. Caso contrário, o próprio espectador se perderá na tradução do que a diretora quis expressar.
Sem exageros, Lost in Translation foi o melhor filme exibido nos cinemas no ano de 2004. A sutilidade com que Sofia consegue alçar este filme não é trabalho para qualquer cineasta, requer um exímio domínio da arte e um fixo objetivo a ser alcançado. De fato, desde a concepção do roteiro até a pós-produção essas características foram perseguidas. A diretora – cuja carreira cinematográfica se iniciou muito cedo, ainda bebê, na cena clímax em The Godfather (1972) – diz ter concebido a idéia para o filme pensando em Bill Murray para o papel de Bob Harris e confessa que não realizaria o mesmo caso o ator não se juntasse ao projeto. Durante as filmagens, tirou uma série de fotos de Tóquio e depois usou-as como referência para as cenas. Diante do conselho do pai para gravar em vídeo de alta definição, argumentou que utilizaria filme por ser mais romântico. Ou seja, Sofia sabia exatamente a atmosfera que desejava atingir.
Quanto a Bill Murray, teria cometido um grande erro em não aceitar o papel. Trata-se de sua melhor performance até hoje e a perda do Oscar de melhor ator para Sean Penn em Mystic River (2003), de Clint Eastwood, é discutível. Famoso por seu trabalho na série cômica Saturday Night Live e por interpretar o Doutor Peter Venkman em Ghostbusters (1984), de Ivan Reitman, havia presenteado o público com o excelente Groundhog Day (1993), de Harold Ramis. Murray consegue transmitir o exato balanço entre o dramático e o cômico exigidos para o papel de Bob Harris, permeado por uma ironia capaz de fazê-lo lidar com os problemas da vida.
Entrementes, este filmes acabou por consolidar e efetivamente divulgar o incrível talento de Scarlett Johansson, uma grande promessa para o cinema. Ela possui aquela beleza discreta, superada por um delicado carisma que dá o tom certo para a fragilidade da personagem. Características que não são difíceis de se encontrar, porém são complicadas para se combinar. Facilmente se cai em uma interpretação insonsa e débil, que leva toda a genialidade do roteiro por água abaixo.


O cinema sempre foi um ávido receptor das produções literárias. Não é difícil imaginar a causa deste fato. Ao se lançar por linhas literárias, o leitor deixa momentaneamente sua rotina de lado e se aventura pela imaginação do escritor. Trata-se de uma maneira de superar a monotonia diária, vendo-se rodeado por novas atmosferas. Se o leitor for dos mais exigentes, daqueles que exigem um Dostoievski ou um Victor Hugo, tal aventura virá acompanhada das mais profundas questões sobre o universo humano e, conseqüentemente, sobre si mesmo. Assim, esse terreno é muito fértil para a dramaticidade que o cinema busca.
A grande questão sobre a migração de obras literárias para a grande tela é justamente a maneira pela qual isto é feito. A literatura possui uma carta na manga difícil de ser superada pelo cinema justamente por este demonstrar uma limitação inerente à sua essência. Isto é, ao ler um livro, o leitor absorve a narrativa e cria, por si só, uma realidade própria. Apesar de oriunda da mesma fonte, nunca a imaginação de um leitor é igual à outra; no máximo, semelhante. Mas fazer um filme é materializar uma realidade subjetiva. O diretor deve estabelecer apenas uma das inúmeras possibilidades para a cena. Com isso, traça um corte que limita a extensa amplitude literária. Pode-se dizer que empobrece as fronteiras da história. Por outro lado, cria a sua própria realidade.
O “x” da questão repousa, portanto, aqui. O processo de criação dessa realidade própria deve considerar a concepção de uma atmosfera sui generis, dotada de suas próprias características. Ou seja, a literatura deve ser o trampolim para um salto maior, através do qual irá se alcançar fronteiras ainda mais distantes. Em suma: o cinema deve contribuir para a aventura do leitor de modo a ampliar a experiência, e não ser apenas uma transposição das páginas para a tela.
As estatísticas demonstram, infelizmente, que este não é o caso, isto é, a superioridade literária se faz presente e as versões cinematográficas são, na maioria, exatamente isso: versões minimalistas de um amplo horizonte.
Em Ernest Hemingway’s The Killers, curiosamente, os dois fenômenos estão presentes: a versão minimalista e a extensão das fronteiras.
Com efeito, o filme de Robert Siodmak abre exatamente como no conto do escritor norte-americano: “The door of Henry’s lunch-room opened and two men came in. They sat down at the counter.
‘What’s yours?’ George asked them.
‘I don’t know,’ one of the men said. ‘What do you want to eat, Al?’
‘I don’t know,’ said Al. ‘I don’t know what I want to eat.’
Outside it was getting dark. The street-light came on outside the window. The two men at the counter read the menu. From the other end of the counter Nick Adams watched them. He had been talking to George when they came in.”[1]
É possível, com o conto nas mãos, acompanhar o desenvolvimento da cena tal qual um script – com rigidez eclesiástica aos diálogos. Pudera: o curto conto de Hemingway se estende por oito páginas apenas, o que corresponde à cerca de dez minutos de filme. Se Siodmak fosse fazer alterações dramáticas, somente a inspiração sobraria do texto.[2] Pois ao término dos dez minutos o conto de Hemingway fica para trás e tudo o que vem a seguir provém da imaginação de Anthony Veiller, Richard Brooks e John Huston (os dois últimos não creditados).
O fato é que tudo colabora para isso. Hemingway foi um dos escritores de língua inglesa mais importantes do século passado, já que foi responsável por uma revolução na escrita. Inúmeras vezes copiado, mas pouquíssimas vezes alcançado, o escritor, nascido em 1899 em Oak Park, subúrbio de Chicago, caracterizou sua literatura por um forte influência jornalística, dotando-a de narrativas ágeis e diretas e de longos diálogos incisivos. Um perfil único que se encaixava com sua vida repleta de aventuras, que o levou a ser desde correspondente e motorista de ambulância durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), grande fã de touradas e conseqüente assíduo freqüentador da fiesta em Pamplona a vencedor do Nobel de Literatura em 1954 por The Old Man and the Sea.
A atmosfera e os personagens das histórias de Hemingway hoje são clichés – anti-heróis durões caracterizados por perdas e incrível sofrimento que são lançados pelo escritor em ambientes inóspitos (tanto naturais como urbanos) e a mulheres que são ou paixões impossíveis ou armadilhas letais – assim como a extensão cinematográfica deste The Killers, tamanha a influência do autor[3]. Aqui, o espectador se vê diante da trajetória dramática e obsessiva do ex-pugilista Ole “The Swede” Andersen (Burt Lancaster, em seu papel de estréia no cinema, consecutivamente à sua experiência circense), impulsionado pela paixão por Kitty Collins (Ava Gardner, em seu primeiro papel de destaque).[4]
A narrativa do filme propriamente dita se dá após o assassinato brutal de Ole Andersen. Este não dá ouvidos aos avisos de Nick Adams (um personagem reincidente nas narrativas hemingwaynianas) e paga o preço por isso. Os trâmites do processo levam o investigador de seguros Jim Reardon (Edmond O'Brien) a uma busca pela verdade por trás dos acontecimentos, o que trará à tona todo um passado obscuro – através de inúmeros flashbacks – que envolve ganância, mentiras, violência, vingança, obsessão e uma paixão avassaladora.
Trata-se claramente de um film noir e é o auge da carreira de Siodmak – judeu alemão nascido em Dresden em oito de agosto de 1900 e que fugiu de sua terra natal após a ascensão nazista. Os trabalhos anteriores do diretor – como The Strange Case of Uncle Harry (1945) – aparentemente apenas o aqueceram para este The Killers. De fato, este filme avança seguro e bem delineado por seu roteiro oriundo do conto de Hemingway – o que rendeu a Siodmak uma indicação ao Oscar em 1947.
O grande trunfo, porém, está na maneira como a transposição da literatura para o cinema se deu. Se, por um lado, o breve conto foi seguido à risca tal como script durante seus dez minutos, por outro, a extensão até o desfecho do filme parece tomar fôlego próprio, com a inserção de novos elementos dinamizadores, mesmo que não supere a magnética influência da atmosfera inóspita criada por Hemingway, cujo nome no título original do filme lhe confere um ar de big hit.
Ernest Hemingway’s The Killers, EUA, 1946. Estrelando: Burt Lancaster, Ava Gardner, Edmond O'Brien, Albert Dekker, Sam Levene. Dirigido por: Robert Siodmak. No Brasil: Os Assassinos.
[1] HEMINGWAY, Ernest. The Killers. In: The Complete Short Stories of Ernest Hemingway – The Finca Vigía Edition. Nova York, Simon & Schuster, 1998, p. 215.
[2] Eis aqui uma boa oportunidade para o leitor seguir, por experiência própria, o argumento deste crítico. O conto de Hemingway se estende da página 215 a 222 da obra bibliográfica citada na nota anterior. Vale à pena lê-lo antes de assistir ao filme e, em seguida, reler esta resenha.
[3] A primeira adaptação de uma novela de Hemingway para o cinema se deu em 1932, com A Farewell to Arms, de Frank Borzage, mas a mais célebre é, definitivamente, For Whom the Bell Tolls, de Sam Wood, com Gary Cooper e Ingrid Bergman, em 1943.
[4] Curiosamente, os dois artistas – Lancaster e Gardner – negaram o sistema de estrelato do qual faziam parte. O ator, de origem irlandesa, declarou: “I woke up one day a star. It was terrifying. Then I worked hard toward becoming a good actor”; a atriz, proeminente por sua beleza, disse: “What I'd really like to say about stardom is that it gave me everything I never wanted”. Ele alcançou seu objetivo de ser tornar um bom ator; ela nunca ultrapassou a barreira do carisma oriundo da beleza – barreira incrivelmente grande para ela, pois era equivalentemente linda.


O cinema norte-americano (leia-se Hollywood) tem, quase que por santificada tradição, o costume de lançar remakes. Não sei se é só falta de bons roteiros ou apenas uma homenagem saudosista; talvez uma mistura desequilibrada de ambos. Sei, sim, que é para abocanhar fartas bilheterias, aproveitando-se da celebridade do original – assim, o remake se torna atraente para aqueles que assistiram ao original em sua época e também para aqueles que só o conhecem pelo nome já disseminado.


Vivemos tempos de releituras e de resgate de gêneros esquecidos. A mediocridade presente ribomba pelos céus da mídia: não há mais idéias originais. Singrando a onda ecológica, nada resta senão reciclar. Fazem-se presentes os musicais e os grandes épicos; só faltam os westerns.
Este Sky Captain and the World of Tomorrow se encaixa, particularmente, em um nicho peculiar: o saudosismo em relação às épocas passadas. Assim como a comédia Down With Love (2003) faz uma paródia dos conturbados e revolucionários anos 1960, este filme traz à tona novamente a característica década de 1930. Ambos, porém, se apóiam por completo sobre o visual e o comportamento, mas de maneira afetadamente estereotipada, isto é, através da visão contemporânea que se tem sobre tais décadas, jogando fora todo o realismo que se poderia abordar.
De fato, o realismo não é a intenção neste filme de Kerry Conran; se fosse, não veríamos robôs gigantes – inspirados no cartoon Mechanical Monsters, de 1941, de Max Fleischer – devastando a cidade de Nova York e, logo depois, sendo combatidos por Joe “Sky Captain” Sullivan (Jude Law) em sua aeronave P-40 modificada enquanto a impetuosa jornalista Polly Perkins (Gwyneth Paltrow) se aventura nas ruas para conseguir um furo.
Com apenas este fragmento do filme se pode vislumbrar todo o panorama no qual ele se encaixa. Visualmente rebuscado, filmado em preto-e-branco e totalmente feito em computador (exceto, é claro, pelos atores e por alguns poucos objetos imprescindíveis para interação), deve-se concordar que é impressionante. A qualidade técnica é impecável e coloca no pedestal a antiga essência do cinema espetáculo de maneira inteligente e interessante, capturando o espectador.
A concepção estética apresenta uma forte influência dos comic books e de filmes clássicos de ficção científica e aventura. Dessa forma, não é difícil notar a incrível semelhança entre a Nova York de Sky Captain e a Gotham City de Batman – quer seja a retratada nos quadrinhos como aquela concebida por Tim Burton no longa-metragem homônimo de 1989. Também é facilmente notável a inspiração para os porta-aviões voadores britânicos: os quadrinhos do herói caolho da Segunda Guerra Mundial, Nick Fury. Inúmeras são as influências, transitando de King Kong (1933) a THX 1138 (1971), passando por The War of the Worlds (1953).
Com o amálgama dessas influências, Conran lança mão do que se passou a chamar estilo rétro-futurista. O dicionário faz referência ao termo rétro ao que se diz de uma moda, de um estilo inspirado em um passado recente, especialmente ao período da década de 1920 a 1960[1]; no caso, a década de 1930. Assim, o cenário de época dá margem para uma invasão de máquinas que claramente não fazem parte dele; ao passo que o design das máquinas não deixa de ter influência do estilo da época. O rétro-futurismo é uma liberdade poética cinematográfica amplamente influenciada pelo universo dos comic books.

O rétro-futurismo caracteriza o visual rebuscado
A história em si, porém, deixa de ser o principal para dar espaço para a inovação técnica atuar. Isso porque o roteiro é um sanduíche de clichés. Tem-se a jornalista impetuosa que faz o impossível por uma boa matéria, o não menos impetuoso herói que salvará a tudo e a todos e o misterioso vilão que investe em terrível plano para conquistar o mundo. Sempre lembrando das influências (que dizem quase tudo a respeito deste filme), fica óbvio a semelhança com a estrutura das histórias do Superman: a egocêntrica e obsessiva repórter Lois Lane, o super-herói e a ameaça vilanesca qualquer – ainda mais se se reparar que o herói voa em ambos os casos. É a fórmula usual estruturada sobre o já gasto maniqueísmo, isto é, tudo está impresso em padrões de preto e branco, não havendo espaço para questionamentos sobre o caráter dos personagens. Eles estão a anos-luz de serem humanos: são, na verdade, modelos idealizados em moldes humanos.
A dinâmica de tal estrutura só funciona devido a dois motivos: os atores são bons e a história, por mais gasta que seja, é bem contada. Através deste último vem à tona a abordagem sui generis que o filme faz de seu próprio universo.
De fato, ocorre a gênese de um mundo próprio – o mundo de amanhã, o desejo ansioso do salto tecnológico que estava por vir a cada segundo e que se concretizou de forma dramática e horrível na Segunda Guerra Mundial (1939-1945) com o desenvolvimento de armas que poderiam trazer o juízo final à realidade. Na verdade, apesar do roteiro ser estabelecido em uma Nova York aparentemente real, há distorções cronológicas e geográficas em relação às referências. Por exemplo, as citações a The Wizard of Oz (1939) – a música tema do filme é, inclusive, Somewhere Over the Rainbow – e a Wuthering Heights (1939) são explícitas e localizariam temporalmente o filme em 1939; no final deste longa, entretanto, é dito claramente que se está em 1938. Sem citar que não há quaisquer indícios históricos, tais como a Grande Depressão advinda com a quebra da bolsa em 1929 e os preparativos germânicos para a guerra[2] – apesar de ser explícita a referência à Primeira Guerra Mundial (1914-1918).
A inspiração essencial para o filme, todavia, repousa sobre a Exposição Mundial de Nova York, que ocorreu entre 1939 e 1940 e que apóia a posição do filme se passar em 1939. Tal exposição (que custou cerca de 155 milhões de dólares) tomou lugar no Flushing Meadows-Corona Park, na época um pântano que funcionava como aterro de lixo. Devidamente drenado e adaptado para servir de localidade para o evento, sobre ele ergueu-se a feira, cujo tema é, justamente, “o mundo de amanhã”. A própria reforma do local representa o progresso e o desenvolvimento, a ampliação da civilização. Como símbolo, foram construídas duas estruturas denominadas Trylon and Perisphere – um obelisco triangular disposto ao lado de uma enorme esfera. No interior da esfera construiu-se um grande modelo de uma cidade do futuro. No filme, a referência a esse símbolo é explicitamente visual, quando os protagonistas atingem o cume das altas montanhas nevadas do Tibet.

Jolie, Law e Paltrow: o elenco confere dinamismo
Como já disse, o desenvolvimento da história está em segundo plano para que o holofote esteja sobre a inovação técnica; além disso, o visual disfarça o mesmismo do qual as cenas seriam reféns. Para que isso fosse possível, realizou-se uma específica combinação do software Adobe After Effects Plug-ins aplicado para aperfeiçoar o visual ímpar do filme; nenhuma nova tecnologia foi desenvolvida, como se pensa. Devido à essa técnica, foi possível filmar em apenas 26 dias; locações comuns elevariam esse tempo para quase um ano e ainda, provavelmente, se cairia para uma ortodoxia visual que enterraria o filme.
Tal contexto remete à 1977, ano de lançamento do já clássico Star Wars, de George Lucas. Neste filme de ficção científica, o grande trunfo era a novidade tecnológica – visto que, neste caso, foi desenvolvida pioneiramente. A concepção do roteiro, por Lucas, consistiu na justaposição de cenas já consagradas: a princesa em perigo, o jovem herói que deve encontrar seu caminho e, obviamente, o vilão. Em seguida, ele aglutinou tais cenas através de gêneros imponentes: o western exposto nas roupas do mercenário Han Solo (Harrison Ford), os filmes orientais que retratavam as artes marciais e as lutas de espada simbolizados no Mestre Jedi Obi-Wan Kenobi (Alec Guinness) e os filmes de guerra refletidos na concepção dos Rebeldes e nos tiroteios intergalácticos. Do mesmo modo, mas com outras referências, fez Conran neste Sky Captain, mas com menos apelo e dramaticidade: não há ambição aqui para uma saga. Menos ainda do que Lucas, porém, houve aqui interação genuína entre tais elementos. A aglutinação apenas serve para que os elementos funcionem como um conjunto, para que não se desgrudem, mas a interação que seria possível entre eles não é nem sequer perseguida. Na verdade, não há espaço para isso e nem se deseja que haja.
A inovação técnica, entretanto, levou às telas um acontecimento curioso e interessante: mesmo estando morto desde 1989, o ator Laurence Olivier, o “homem que recitava Shakespeare dormindo”, faz uma ponta. Isso foi possível através da manipulação de imagens em arquivo do ator, o que faz nascer uma instigante questão: qual o espaço para esse tipo de atuação? Não se trata, realmente, de uma atuação. Ora, a interpretação de um ator não pode ser reproduzida – mais uma vez – se justapondo expressões arquivadas. Cada expressão é única e, mesmo que o ator a reproduza, nunca será exatamente igual à primeira. Assim, é interessante a presença de Olivier no filme, mas não pode, indubitavelmente, se transformar em um hábito ou, pior, em uma regra. Por enquanto foi uma homenagem, amanhã não se sabe.
O cinema espetáculo, portanto, está aqui mais vivo que nunca e acaba por ser positivo. Neste caso, pode ser a justificativa para um filme, mas não um guia para o cinema em geral, como Hollywood costuma fazer. Pois desta maneira toda a originalidade fica enjaulada – a mesma originalidade que fez nascer este Sky Captain.
A formatação do cinema em espetáculo, todavia, lhe dá um aspecto romântico e, portanto, precisa da romantização para se estruturar. Entra-se, assim, na análise da romantização das épocas passadas, especialmente do entre guerras. Faz-se notável a visão romântica que se construiu do entre guerras, mesmo sabendo-se o quão terrível tal período foi para o mundo e mais ainda quando ele acabou em 1939. Talvez essa atmosfera romântica tenha nascido com o maior clássico romântico, Casablanca (1942), filmado ainda durante a guerra.
Dessa forma, Sky Captain não chega a ser uma releitura das décadas de 1930 e 1940, pois se assim fosse, teria que apresentar algo de novo em seu caleidoscópio de gêneros; trata-se muito mais de uma homenagem. Como dizia no começo desta resenha, nestes tempos medíocres, este filme se assemelha mais a um fast food: devora-o rapidamente, aprecia-o enquanto o faz e, uma hora depois, esqueça-o que o ingeriu. Afinal, trata-se apenas de um rebuscado e delicioso sanduíche de clichés. De caráter rétro-futurista, é verdade.
Sky Captain and the World of Tomorrow, EUA, 2004. Estrelando: Jude Law, Gwyneth Paltrow, Angelina Jolie, Giovanni Ribisi, Laurence Olivier. Dirigido por: Kerry Conran. No Brasil: Capitão Sky e o Mundo do Amanhã.
[1] Le Larousse de poche 2004 – Dictionnaire de la langue française et de la culture essentielle. Paris, Larousse, 2004, p. 708. A referência original é: “Se dit d’une mode, d’un style s’inspirant d’un passé récent (en particulier des années 1920 à 1960)”.
[2] Durante a exposição das manchetes dos jornais de todo o planeta, pode-se ver o símbolo da Águia de Ferro, uma referência ao regime nazista estar no poder na Alemanha. Indicações dos preparativos para a guerra – facilmente visualizados em qualquer livro de História sobre o tema – porém, estão totalmente ausentes.